Meu emprego
é uma merda. Não que ser jornalista seja ruim, longe disso, além do mais sempre
foi o que eu quis fazer. O real problema é meu trabalho atual, numa porcaria de
portal de fofocas. Nossa, como eu odeio isso, só de falar já me dá nojo, mas
fazer o que se esse era o único trabalho disponível na época? E hoje ele está
particularmente mais chato, pois decidi parar de beber. Não porque “isso não é
saudável”, ou qualquer outra besteira politicamente correta, e sim porque uma
garrafa de Whisky bom por dia desde os 20 anos, ultimamente vem me dando um
prejuízo danado, o que não é pra menos, com o salário risível que me pagam, e
como não sou adepto à bebidas ruins, estou caminhando para o meu segundo dia
sem beber, o que afeta diretamente meu desempenho em tudo, pois estou horas
encarando meu notebook, sem conseguir escrever uma palavra sequer sobre essa
celebridade ridícula que tem feito de tudo pra aparecer na mídia, e ser
defendido por suas fãs idiotas de 13 anos.
Já é
madrugada, e nada além de frustração e fome, então resolvi parar e fazer um
lanche pra buscar inspiração. Abro a geladeira, e não tem nada prático pra
beliscar. Pego o refrigerante, um copo, e quando vou me servir, vejo sobre a
pia um rato branco me encarando. Sei que em cidade grande ratos são normais,
mas nunca entrou nenhum em minha casa. Por enquanto não me parece uma grande
ameaça, mas ele fica ali parado sobre duas patas me olhado fixamente para onde
quer que eu me mova. Chego perto, e rapidamente, coloco meu copo virado pra baixo
sobre o animal, prendendo-o antes que me cause algum problema. E para o meu
espanto, ele mal se moveu ao ser preso, e continuou me observando com seus
olhos vermelhos. Fui até a sala, peguei meu celular pra bater uma foto antes de
me livrar do bicho, mas quando voltei, tudo o que vi foi meu copo sobre uma
pilha de sal, e nenhum sinal do meu amigo do rabo longo. Acho que estou sendo
afetado pelo sono. Simplesmente virei, e regressei à sala para terminar logo a
minha matéria. Mas paro quando vejo três ratos em minha escrivaninha, todos
iguais ao outro, me fitando. Perplexo, caminhei até eles, que ao perceberem que
cheguei perto, correram todos em direções diferentes. Irritado, comecei a
perseguir um que passou por baixo de minhas pernas e correu até meu quarto.
Chegando lá,
nem sinal do maldito de pêlo branco. Ligarei para um dedetizador amanhã, não
posso esquecer disso. Quando ia apagar a luz, vi uma movimentação embaixo da
coberta que jazia em minha cama, e quando a puxei, mal pude acreditar nos
incontáveis ratos que saiam correndo de cima de minha cama. Mas dessa vez não
fugiam, eles me atacavam. Dezenas deles subindo em minhas pernas, mordendo meus
calcanhares e ferindo minhas canelas. E quando pisava, ou chutava um para
longe, estes viravam sal, como se ao morrer, o corpo parasse de existir. Corri
novamente para a sala, para me deparar com uma infestação me atacando, agora às
centenas. Não podia ficar ali, e tropeçando em todos os móveis possíveis, me
dirigi à garagem, sendo perseguindo por estes roedores que pareciam brotar
diretamente do inferno. Com tanta pressão, foi difícil abrir a porta do carro,
e quando consegui, fui derrubado por uma onda de mais destes demônios, saltando
de dentro do meu carro ininterruptamente. Fiquei uns poucos segundos caído, mas
foi tempo o suficiente para que eu tivesse boa parte de meu corpo mordiscado.
Quando levantei, corri em direção a uma saída. Não tenho certeza de como
consegui chegar à rua, creio que a porta dos fundos estava aberta. Por um
instante pensei ter escapado desse pesadelo aterrorizante que não parecia ter
fim, mas quando esboçava um sorriso vitorioso, vi algo que não me agradou nem
um pouco: Mais e mais dessa praga saindo dos bueiros, sem parar e se juntando
aos montes que saiam de minha casa. Sem parar pra respirar por um segundo,
corri batendo em postes, lixos e carros, mas sem cessar por nada, pois os
machucados que eu já tinha ardiam o suficiente para me lembrar o que me
aguardava se eu parasse. Mas qual era o plano, correr até que eles desistissem?
Não sei, mas não custava tentar.
Como imaginei,
essas feras não desistem, mas meus pulmões, meu corpo e minha esperança não
aguentam mais, e creio eu que não faz sentido eu ficar me torturando, sendo que
o final parece inevitavelmente trágico de qualquer forma. É quase de manhã, e
eu simplesmente desisti de tentar. Estou aqui numa praça, e já avistei um
banco, no qual me sentarei e abraçarei a morte e seu frio hálito, que já me faz
tremer antecipadamente. Semimorto me sento neste banco, e percebo que todos os
ratos pararam em minha volta, como se esperassem minhas últimas palavras
piedosamente, antes de me devorarem até não sobrar mais nada. Eu simplesmente
não consigo falar, no meu estado mal dá pra respirar. E tudo o que passa em
minha mente agora, é como a sorte me abandonou pra morrer dessa forma, sendo
comido vivo pelas criaturas mais asquerosas que eu posso imaginar. Como se
estivessem cansadas de esperar, se dirigem às minhas pernas, como um bando de
abutres, e não demorou muito até que eu estivesse sendo impiedosamente rasgado
por dentes até o couro cabeludo. A dor
ardente foi tanta, que não resisti muitos segundos antes de desmaiar.
Agora que
recobrei a consciência, não sei ao certo onde estou. Sinto meu corpo pesado,
quase como se estivesse todo quebrado. Deve ser assim que nos sentimos quando
mortos. Ouço uma voz, mas me recuso a abrir os olhos e descobrir de onde ela
vem. Cada vez mais alta e clara, percebo que ela chama meu nome. Levanto com
dificuldade minhas pesadas pálpebras, e mal enxergo além de borrões, mas vejo
uma silhueta em minha frente, e escuto ela dizendo enquanto minha visão vai se
adaptando à tanta luz de uma vez.
- Que bom
que acordou Senhor Joaquim. Como está se sentindo hoje? – perguntou o que
parecia ser um senhor bem calmo.
- Onde
estou? Quem é você? E como conseguiram espantar os malditos ratos? – foi tudo o
que eu consegui perguntar com a garganta seca.
- Ratos?
Bom, sobre isso conversaremos mais tarde para que me explique melhor. Mas de
resto, sou o Dr. Martín, e você está na Santa Casa, o hospital. Te trouxeram
aqui em meio a alucinações uns dois dias atrás.
Depois de
algumas horas, expliquei ao doutor tudo o que havia me acontecido naquela
noite, enquanto ele me explicou como eu havia sido encontrado na praça em
condições deploráveis, e que alguns homens haviam me carregado até o hospital.
Em relação aos ratos, me diagnosticaram com Delirium
Tremens, que é uma forma psicótica de abstinência alcóolica, que causa,
dentre muitos outros sintomas, alucinações vívidas, sendo muito comum insetos e
animais asquerosos, por muitas vezes ratos brancos. As fraturas e feridas em
meu corpo (que ainda ardiam muito), julgaram ter sido uma série de pequenos
acidentes que sofri enquanto “fugia” em meu pesadelo criado por minha própria
cabeça. Acham que eu pulei alguma janela, ou até mesmo houvesse sido atropelado
quando corri pra rua. Passei quase dois dias com febre e delírios, enquanto
resmungava sobre a “minha morte solitária”, entre outras baboseiras sem
sentido.
Tentaram
fazer com que eu ficasse internado para algumas sessões de terapia, mas já me
sinto estúpido em demasia, e não queria me sentir um louco necessitado também.
Como observaram que a crise passou, me aconselharam a ficar longe de bebidas,
coisa que prometi como uma criança idiota, para que me liberassem logo.
Vim andando
para casa com a vergonha estampada na cara e nas roupas doadas que eu estou usando,
pois aparentemente, as minhas se encontravam sem condições de uso. Logo que
avistei minha casa, percebi a janela da garagem estourada. Pelo visto, não sai
pela portas dos fundos em meio ao desespero. Meu carro aberto, e alguns móveis
revirados, sendo possível até mesmo traçar uma trajetória de pequenos acidentes
leves, previstos pelo doutor. Olhar isso faz com que eu sinta pena de mim
mesmo, por ter atingido o fundo do poço. Decidi parar de beber, e talvez
procurar outro emprego, me reinventar por completo. Entro na cozinha pra
preparar um bom café preto, quando o que vejo na pia me dá calafrios na
espinha, e faz com que eu sentisse todas as feridas ainda abertas no meu corpo.
Meu copo de vidro, virado de cabeça pra baixo sobre uma pilha de sal.
Talvez eu precise mesmo de terapia, ou talvez eu
necessite de um exorcista para minha casa. Mas de imediato, eu preciso comprar
um bom Whisky envelhecido, para poder dormir em paz essa noite.
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