quinta-feira, 13 de março de 2014

A Dança

Era realmente uma festa adorável, uma dessas de debutante. Sem muita extravagância, mas sem nada fazendo falta. Para o deleite de todos, tinha tudo o que se deve ter numa celebração deste tipo: comida, música boa, uma atmosfera contagiante, e adolescentes dançando com aquela alegria que a vida consome aos poucos com o tempo. Um desses jovens era David, que depositava naquela noite grandes esperanças.

David era um garoto de alma antiga, preso em um tempo que não combina com seus valores e estilo. Amava todos aqueles conceitos obsoletos que só são possíveis em filmes da década de 50, como cavalheirismo, romance, amor, e poesia. E é claro, isso o tornava diferente do que se espera de alguém de sua idade. O comum seria se enfurnar em baladas, beber o que o dinheiro comprar, e beijar pessoas sem nome ou conexão. Vale dizer que David não era um sucesso em sua escola, especialmente por não participar deste tipo de festa, e vê-lo ali aquela noite já era algo genuinamente inesperado. Pelo menos, por quem não sabia o que esperar. Não era o caso de David, pois ele sempre tinha algo planejado.

Sempre gostou do previsível, e estruturar planos é um de seus principais hobbies. Sua filosofia era criar momentos perfeitos, que nunca poderiam ser esquecidos, e que passavam longe de ser superficiais. As lembranças que guardavam deveriam ser nostálgicas, e sentimentais. Esse era o pensamento, mas na maioria das vezes nada dava certo. O destino cruel e o acaso teimavam em frustrar seus planos e memórias, que acabavam se tornando quase perfeitas, mas diferentes do plano original em sua mente. Mas essa era uma noite especial, pois tudo estava conforme o planejado.

Há horas conversava com Clarice, que parecia realmente estar gostando do papo. Ela era dona do sorriso mais acalentador que David já viu. A maioria dos rapazes elogiava sua aparência, seus olhos, e muitas vezes seu belo corpo. David não era cego a isso tudo, mas era quando ela sorria que todo o mundo se tornava superficial, e tudo passava a fazer sentido. Era o melhor momento do dia, e David fazia o que era possível para que ela sorrisse sempre. A conversa fluía, e os dois pareciam engajados e sintonizados nos mesmos assuntos, e o diálogo nunca morria. Não precisavam de mais ninguém, e a festa poderia continuar a noite inteira se dependesse deles dois.

O tempo voava, e então nosso jovem ouviu o primeiro sinal de seu plano: começou a tocar uma música do Black Keys, Chop and Change, especificamente. Essa era a música que tocaria antes da lenta que pediu ao DJ. Suas pernas tremiam, e começava a gaguejar. Mas o que temer? Sabia o passo a passo, estava tudo de acordo com o plano! Respirou fundo, e passou a agir da forma mais natural possível. Ouviu a música acabando, levantou-se comedidamente, parou enfrente à sua dama, estendeu-lhe a mão, e curvou-se dizendo: “Me daria o prazer de ter toda sua graciosidade envolvida em meus braços, por ao menos uma dança?”. Claramente, soou forçado, mas ele não se importava. Já não era uma criança perdida e vacilante, era um cavalheiro de outrora, e falava como tal. Clarice não entendeu muito bem, mas ficou supresa o suficiente, e sorria com o canto da boca. A expressão de David permanecia serena, em contraste com todo o conflito interno que sentia. Depois de alguns longos segundos, ainda recebia um olhar que representava a palavra perplexidade, mas enfim Clarice segurou sua mão, e levantou, deixando-se guiar por seu parceiro. Tudo dava certo, finalmente.

De braços dados, caminharam lentamente até o centro do salão. Ninguém entendia o que estava acontecendo, mas poucos efetivamente se importavam. Eram anônimos destoantes em meio ao caos de uma grande festança, e isso não poderia ser mais perfeito. Em seus lugares, ambos riram enquanto faziam reverências de música clássica ao som de You and Me, da Lifehouse. E então, dançavam. Não precisavam falar nada, pois a sintonia entre os dois ia além da conversa. Seus corpos se moviam como um, e seus corações batiam em sincronia. Clarice tinha sua cabeça apoiada nos ombros de David, que a abraçava forte, e a levava pelo salão. Ninguém mais importava, e no mundo só havia os dois e a música. Aquilo parecia certo, com tudo em seu devido lugar. E nada mais precisava de sentido, nem mesmo as horas, seu nome, ou a própria vida. Esse momento era exatamente o que precisava ser: perfeito, e sem nenhuma intervenção do acaso.


Foi quando o inesperado mostrou sua face. Clarice tirou a cabeça do ombro de David, e o olhou nos olhos. Ele não sabia o que estava acontecendo, mas se perdeu no melhor dos sorrisos que a garota tinha para oferecer. Completamente inebriado, quase perdeu o momento seguinte, em que ela lentamente beijou seus lábios. Não existia capacidade imaginativa o suficiente para nem ao menos sonhar com algo tão doce, e o fugir de seus planos nunca teve um sabor tão agradável. Aproveitou cada um dos segundos de um amor genuíno, e retribuído. Tinha sua mente vazia, e sabia que precisava se concentrar ao máximo para cada instante dessa noite ficasse gravado para sempre em sua memória. Perfeição assim nunca mais há de se repetir, e essa era uma de suas poucas certezas. Eles eram o casal mais feliz do mundo, perdidos em seu universo particular, e por fim, não há como existir em nenhum outro lugar uma dança tão agradável.